domingo, 27 de março de 2011

Uma consulta

— Dá licença? — Entre quem é.
— Muitos bons dias. — Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe vossa excelência
Se a não conhecia agora.
— Sem mais... À sua ciência
Recorrer venho.—Deveras ?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras).
Então que temos ? — Padeço.
— Sim? porém de que doença?
— Essa é boa! acaso pensa
Que eu porventura a conheço?
— Ah! não conhece ? — Quem dera ! Então não o consultava.
— (E eu que muito estimava).
Mas diga, então? — Eu lhe conto...
Oiça bem. Não perca um ponto.
— Nem um ponto hei-de perder.
— Ai, doutor, doutor, meu peito...
— É do peito que padece ? Quem havia de o dizer!
— E Jesus, doutor, parece Que me quer interromper?! Não era a isso sujeito.
— Nem o tornarei a ser... Vamos lá. —Or a eu começo... Atenção é o que lhe peço ;
Diga-me: que lhe pareço ? Não me acha muito abatida?
— Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
— Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
— Então que é o que sente ?
— O que sinto? Ora eu lhe digo :
O doutor é meu amigo?
— Oh ! senhora... — E é prudente ? Oiça, pois: Eu dantes era
Fera e rija, que era um gosto! Ou em Dezembro ou Agosto Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada.
— E hoje? — Não lhe digo nada, Nem comigo posso já.
— Mau é! — Quer saber, doutor ? Só para vir até cá,
Que tormentos não passei!
— Diga-me, se faz favor.
Que idade tem? — Eu nem sei... Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia.
— (É grande consolação!)
— Tenho ainda outros dois manos Que mais velhos do que eu são, Porém, como eu lhe dizia, Doutor...—Qu e mais sente então?
— A vista sinto estragada, Até já me custa a ler,
De mais a mais sou nervosa. Isso não lhe digo nada!
Olhe, estou sempre a tremer.
— Faço idéia. — Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé.
— Lisonjeia-me. — Outra queixa... Que eu sofro também... Qual é?
— É dum forte mal de dentes. Todos me caem. — Bem, bem.
— E os que restam, mal assentes, Qualquer dia vão também.
— É provável. — Ai, doutor! Que cruel enfermidade!
Não acha? — Acho e o pior...
— Há-de curar-me, nao há-de?
— E então nao sente mais nada ?
— Nada... ai, sim, tem-me parecido, Porém, talvez me iludisse...
•— Diga. — A semana passada, Como ao espelho me visse... Pareceu-me ter percebido...
— O quê ? — Que a pele não era
Como dantes, tão macia.
—• E então ? — Quem visse dissera
Que eram rugas. — (Eu dizia)
E é isso o que padece ?
— Ainda pouco lhe parece, Doutor? — Por certo que não.
— Então que doença tenho '
— Em sabê-lo muito empenho Sempre tem ? — Eu ? Pois então ? Para isso o procurei.
— Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
— O meu doutor! — O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
— Ai Jesus! — E muita gente Dele morre. —Oh santo Deus! Por quem é não diga tal!
E... morre-se de repente?
— Conforme. — Pecados meus? E então é isso o que pensa! Porém ainda me não disse
O nome dessa doença
E eu sempre o quero saber...
— O nome?—Sim.—É . . velhice!
— E o remédio? — Morrer.
Janeiro de 1860
A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante que me contaram